O testemunho de Mônica, mãe de Giovanna, anencéfala
(nascida em 25 de março de 2005)
Sempre sonhei com a maternidade. Acho
realmente que foi para isso que eu nasci. Tinha a pretensão de que para ter
filhos, nós escolhíamos o melhor momento. E este momento, foi o ano de 2004.
Nos preparamos desde o início do ano para uma possível gestação. Fiz exames,
reduzi o número de atividades, etc.
Giovanna foi um bebê feito com muito
amor, nós a desejávamos muito. O exame que deu positivo foi festejado por
todos ao nosso redor. Nas primeiras semanas, senti uma forte cólica que segundo
a médica, poderia ser um princípio de aborto ou apenas uma cólica de implantação
do embrião. Naqueles quinze dias de licença, com medo de perder meu bebê,
lembrei que a mãe do Pe. André, um grande amigo nosso, o consagrou a Deus
ainda quando estava em seu ventre. Achei aquilo lindo! Resolvi também consagrar
meu bebê a Deus e pedi que Ele fizesse dela sua serva. Que ela pudesse apontar
Deus para seus irmãos. Acreditei assim, que isto se daria a partir de alguns
anos.
No dia 10 de outubro na hora de deitar,
falei ao meu marido que estava um pouco preocupada com a ultra que faria no dia
seguinte, pois era nesta que se diagnosticava a anencefalia. Uma grande amiga
minha tinha tido este diagnóstico a uns 3 anos atrás. Quando entramos para o
exame, estava bem mais relaxada e preocupada em saber o sexo do bebê. Começamos
a perceber o médico muito preocupado e calado. Quando perguntou se o meu médico
estava no consultório naquele momento, gelei. O médico muito delicadamente
avisou que a anencefalia era incompatível com a vida. Chorei e de mãos dadas
com o Marcelo falamos seguramente que a nossa responsabilidade de pai e mãe em
qualquer circunstância já tinha sido assumida quando a fizemos. Ela já estava
ali, já se protegia em mim e nós já amávamos. Quando chegamos, procuramos na
Internet algo que nos orientasse, mas como estava próximo da votação da
suspensão da liminar que liberava o aborto nestes casos só conseguimos ler
opiniões contra e a favor do aborto.
O conforto veio de lindas cartas
escritas por pais de bebês que possuíam anencefalia. Lendo-as, acabamos nos
sentindo escolhidos e privilegiados. Aliás, era um confronto enorme, a tristeza
que ficou da gestação de anencefalia da minha amiga, e o amor extremo expresso
por estas famílias que viveram com seus filhos o tempo que Deus quis.
Percebemos também que depois da
consagração que lhe fiz, Deus tinha dado à ela uma grande missão. Mostrar
que tinha vida e que era uma cidadã.
Resolvemos que iríamos curtí-la
intensamente cada momento. Gravamos todas as ultras, conversávamos com ela, e
ela por sua vez, respondia com carinhosos chutinhos.
Tínhamos o grande desafio de preparar a
nossa família e os amigos para esta realidade. Como falar com uma mãe que vai
perder seu filho? Pergunta-se como ela está? Como o bebê está? Foi através
da carta da Ana Lúcia para o seu filho Vitor (anencéfalo) que preparamos as
pessoas mais próximas. Com o amor por ela que passávamos para os outros,
fizemos com que todos ao nosso redor, também a amassem.
Foram meses de muita alegria. A única
coisa que me fazia sofrer eram as pessoas que não viam vida em mim.
Nitidamente, me viam como uma coitadinha que estava “brincando de ser mãe”.
Não tocavam no assunto da gravidez. Eram capazes de me vir com aquele barrigão
e fingir que não viam.
Giovanna mudou muita coisa ao nosso
redor. A começar pelo ultrasonografista, que enquanto nas primeiras ultras se
referia a ela no passado (era uma menina), nas últimas já comentava que ela
tinha “pernocas”, mostrava sua boquinha, etc.
Nos dias que antecederam o parto, fiquei
um tanto apreensiva. Seu nascimento que estava programado para entre 2 e 9 de
abril, foi antecipado para 25 de março. Além de ser menos dias para eu curtí-la,
(sabia que enquanto estivesse comigo,ela estaria bem)também seria em plena
Sexta-Feira Santa .Pensava que era uma opção nossa e que como não se poderia
evitar, o seu enterro poderia “atrapalhar” o feriado das pessoas.Tive uma
gestação muito tranqüila como qualquer mulher.No final ,foi percebido um
problema na minha placenta que não deixava passar nutrientes para ela como
deveria. Como eu já havia preparado meu médico para ficarmos o máximo de
tempo possível após o parto curtindo a Giovanna,ele antecipou para o dia da
Paixão de Cristo. Quando me deparei com a paixão que nós três estávamos
passando e pensei na de
Cristo, percebi que a perfeição já começava no dia lindo que Deus
escolheu para lhe recebermos e Ele recebê-la. Ofereci o nosso sofrimento pela
conversão dos pecadores e Deus cuidou do resto. O dia começou com uma chuva
fina, como uma forma Dele dizer: Estou presente!Aliás, nunca tivemos um momento
tão íntimo com Deus como naquele dia e nos outros que se seguiram. Na
maternidade, uma festa. Vinte e seis pessoas entre familiares e amigos
aguardavam nos corredores e no quarto para terem a chance de viver o sublime
momento da presença dela no meio de nós. Só alegria. Pe. André, padrinho
escolhido antes do diagnóstico, me ministrou a Unção do Enfermos,
confessou-nos e deu-nos a Eucaristia. Agora estávamos prontos. Na sala de
parto, a nossa alegria e expectativa eram contagiantes. Quem via os nossos
semblantes, não imaginava o que estava para acontecer. Foi muito tranqüilo e
podemos sentir imensamente a presença de Deus ali.

Giovanna recém-nascida, chorando, sua mãe Mônica e Padre André, que fez o
batismo.
Giovanna nasceu às 14:17h. Fiquei
preocupada pois não ouvia seu choro. Sabia que corria o risco dela não reagir,
não respirar e falecer no momento que cortasse o cordão umbilical. Fiquei
apreensiva esperando alguém me dar notícias dela. Foi quando ouvi seu chorinho
confirmado pelo Pe. André que foi batizá-la. O Papai tirou muitas fotos dela
quando o Doutor Alberto, seu pediatra, veio trazê-la para meus braços. Ela era
linda! Tinha a boca do Papai e o meu nariz. Seu chorinho era como se me pedisse
proteção e foi o que fizemos. Dei carinho, beijo, chorei, pedi desculpas pela
vida curta que lhe daria e curtimos muito. Levaram ela e fiquei com uma sensação
maravilhosa pois tudo que pedimos já tínhamos conseguido: Que ela fosse
batizada e que tivéssemos um tempinho para curti-la. Fui para o quarto e umas
18:00 h fui vê-la. Cheguei lá, os batimentos cardíacos dela estavam baixos e
o aparelho emitia um alarme. Ao vê-la fiquei muito emocionada, pois ela estava
peladinha e pude observá-la melhor e ver seus pezinhos, seus bracinhos, fofa
demais! Comecei a fazer carinho em sua perninha e dizer o quanto ela era amada e
o quanto estávamos orgulhosos da sua força. Sem que eu soubesse do seu estado,
seus batimentos começaram a subir de 94 para 129 e estabilizaram (o normal é
entre 120 e 170) para a surpresa inclusive da enfermeira que estava conosco. Foi
a prova física do que eu já sabia. Que ela me reconheceu como aquela que a
protegeu durante os nove meses e deu até um “sorrisinho” de tão relaxada
que ficou. Foram momentos inesquecíveis. Ver quanto éramos importantes para
ela, era tudo o que precisávamos e ao mesmo tempo, nem sei se merecíamos
tamanha alegria. Foi colo de Deus mesmo.

Giovanna no colo de sua mãe, Mônica.
Umas 20:30 h pedi ao Marcelo para ver
como ela estava. Ele voltou muito emocionado e disse que ela não estava muito
bem, que respirava com dificuldades, que já devia ser a hora dela e que não
achava bom eu ir lá. Choramos juntos e também rezamos juntos para que Nossa
Senhora a recebesse quando chegasse lá e que ela não sofresse. A médica
avisou à Miriam (madrinha da Giovanna) que era bom eu ir. Foi o que eu estava
precisando. Quando cheguei lá, Giovanna não respirava mais, mais seu semblante
era realmente de que não sofreu e de quem tinha partido nos braços da Mãe do
Céu. Peguei ela no colo e percebi
naquele momento ela estava nos vendo e que sabia do amor que tínhamos por ela.
Dei beijos e fiquei um tempo contemplando seu rostinho lindo.
Seu enterro foi tratado às 9:00 h do
dia 26 para às 11:00h do mesmo dia. A chuva fina permanecia e por ser um Sábado
de Aleluia, imaginamos que as pessoas não teriam tempo de saber e de estarem lá.
O carinho de todos foi tão grande que umas 90 pessoas entre amigos e familiares
foram nos dar apoio. Marcelo carregou seu caixãozinho com o orgulho de quem deu
a vida e dignidade quando esta já não era possível. Sabia que para esta filha,
com certeza, teríamos dado o Céu. E que a vida que ela hoje vive não tem mais
fim. Giovanna foi uma guerreira que mostrou aos mais incrédulos que era pequena
no tamanho, mas grande na necessidade de mostrar o quanto sua vida era
importante.
(a parte a seguir foi acrescentada pela
autora depois da propaganda do aborto de anencéfalos pela revista Veja)
Hoje,
aquela paz abriu espaço para uma inconformação quando ouço a frieza com que
falam do assunto.
Chamam-me
de hipócrita (Revista Veja 03/09/08) por eu acreditar que crianças que nascem
com anencefalia (ausência parcial do
cérebro) como minha filha, têm o direito de serem respeitadas como seres
humanos e cidadãs que são. Hipócritas são os que defendem os direitos dos
excepcionais, mas querem que estes sejam aniquilados pelas suas mães em seu útero
se assim elas desejarem.
Minha
filha viveu além dos nove meses em meu ventre, apenas 6 horas e 45 minutos, mas
nasceu viva e por todo este tempo, respirou sem a ajuda de aparelhos e chorou ao
nascer. Esta não é somente uma discussão entre “doutores” e a Igreja como
querem que acreditem.
Sinto-me
profundamente desrespeitada como mãe quando ouço que uma criança como a
minha filha, não tem direito à vida e tê-la protegida pelas leis que regem o
meu país. Não admito que se menospreze a importância da vida da minha filha
como se faz.
Se
estiverem preocupados com o emocional das mães, pensem não só nas mães que
rejeitam este filho “imperfeito”, mas também nas mães que os acolheram
como príncipes de suas vidas. E desta forma, fica impossível eu não sofrer
profundamente ao ouvir que vocês até aceitam que eu leve a gestação até o
fim, mas que minha filha não tem o direito de viver o tempo que não sabemos
também se ainda teremos para viver. É como se dissessem que respeitam a minha
opção de fingir que sou mãe.
Sofro
ao ouvir que “o que se tem no
ventre materno é algo que nunca chegará a alguém”, “O útero materno é
um casulo e o feto, uma crisálida que não chegará a ser uma borboleta. Tem o
direito de nascer para morrer?” (Ayres Britto – O Globo 21/10/04). A
constituição do meu país “abraça” a dignidade humana da minha filha e a
coloca como cidadã que nasceu viva respirou sozinha e veio a óbito
naturalmente. Com isso teve direito a certidões de nascimento e óbito e
enterro digno como toda mãe deseja para um filho morto. Sofro ao ler em dicionários
que anencéfalo é um monstro caracterizado pela ausência de cérebro. Minha
filha não nasceu um monstro. Pelo contrario um bebê lindo que carregava
características nossas como qualquer outro bebê. Também sofro ao ouvir
mentiras tendenciosas como dizer que o bebê que nasce assim não tem vida. Quem
não tem vida chora? [...]
Não
me sinto no direito de julgar aqueles pais que tomaram decisão diferente, pois
agem como um homem que por desespero atente contra a vida do assassino de um
ente querido. Entendo seus motivos,mas não posso concordar com seus atos. Se eu
concordasse com esta liberação, estaria aceitando que a vida da Giovanna é
uma verdade relativa. A um interesse meu de passar ou não por um sofrimento. Se
não quero passar por ele, então ela não tem vida. Se aceito, tem vida. Tem
vida e pronto. Ponto incontestável na minha experiência de mãe que a vi
respirar espontaneamente como qualquer outro bebê.
O
governo deveria sim, dar todo o apoio físico e psicológico para esta mulher,
para que assim como comigo, o que fique, não seja a dor de ter matado um filho,
mas uma dor conformada, pois a protegi enquanto a vida lhe foi possível.
Rio de Janeiro, 10 de setembro de 2008.
Mônica Torres Lopes Sanches.
