Pró-vida Anápolis

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Segunda, 15 Maio 2006 00:00

A ira santa

(é possível falar sobre o aborto sem se indignar?)

 Os fatos

No dia 7 de março de 2006, a 1ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais do Distrito Federal confirmou, por unanimidade, a sentença de primeiro grau que condenou o Pró-Vida de Anápolis e seu presidente Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz a indenizarem um membro do Ministério Público do Distrito Federal que em Brasília expediu diversos termos de recomendação para a prática de aborto, que denomina “antecipação terapêutica de parto” (ATP). O acórdão também confirmou a ordem de retirar da Internet a matéria considerada “ofensiva” e causadora de “danos morais” ao agente público. Foi publicado no Diário de Justiça da União, p. 157, seção 3, e recebeu o número 242231[1].

A decisão condenatória já era de se esperar, uma vez que a mesma Turma, em 16 de agosto de 2005, havia condenado o Pró-Vida de Anápolis pelo simples uso da palavra “abortista” para designar quem defende o direito ao aborto.

Do que foi relatado, fica evidente a perseguição que se desencadeou contra tudo aquilo que possa lembrar a Igreja Católica. As sanções incluem o cerceamento da liberdade de expressão, a imposição de indenizações e até mesmo a proibição do uso da língua portuguesa, uma vez que não há outra palavra em nosso idioma (a não ser “abortista”) para designar quem defende o direito ao aborto.

Embora o Pró-Vida de Anápolis tenha-se mostrado muito comedido ao referir-se aos abortistas, vejamos se é lícito irar-se ao tratar do assunto aborto.


Pode ser lícito irar-se?

Segundo Santo Tomás de Aquino (1225-1274), “pode haver mal na ira, quando alguém se ira mais ou menos do que é conforme a reta razão. Mas – prossegue o santo – se alguém se ira de acordo com a reta razão, então irar-se é louvável[2].

Nesse artigo, Santo Tomás cita São João Crisóstomo (350-407): “Quem se ira sem causa, será réu; quem o fizer com causa, não será réu: pois, sem a ira, não aproveita a doutrina, nem a justiça triunfa, nem se reprimem os crimes[3].

Esse pensamento é reproduzido por Rui Barbosa, em sua “Oração aos Moços”, um discurso lido solenemente em 29 de março de 1921 para os formandos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo:

Nem toda ira, pois, é maldade; porque a ira, se, as mais das vezes, rebenta agressiva e daninha, muitas outras, oportuna e necessária, constitui o específico da cura. Ora deriva da tentação infernal, ora de inspiração religiosa. Comumente se acende em sentimentos desumanos e paixões cruéis; mas não raro flameja do amor santo e da verdadeira caridade. Quando um braveja contra o bem, que não entende, ou que o contraria, é ódio iroso, ou ira odienta. Quando verbera o escândalo, a brutalidade, ou o orgulho, não é agrestia rude, mas exaltação virtuosa; não é soberba, que explode, mas indignação que ilumina; não é raiva desaçaimada, mas correção fraterna. Então, não somente não peca o que se irar, mas pecará, não se irando. Cólera será; mas cólera da mansuetude, cólera da justiça, cólera que reflete a de Deus, face também celeste do amor, da misericórdia e da santidade.

Dela esfuzilam centelhas, em que se abrasa, por vezes, o apóstolo, o sacerdote, o pai, o amigo, o orador, o magistrado. Essas faúlhas da substância divina atravessam o púlpito, a cátedra, a tribuna, o rostro, a imprensa, quando se debatem, ante o país, ou o mundo, as grandes causas humanas, as grandes causas nacionais, as grandes causas populares, as grandes causas sociais, as grandes causas da consciência religiosa. Então a palavra se eletriza, brame, lampeja, atroa, fulmina. Descargas sobre descargas rasgam o ar, incendeiam o horizonte, cruzam em raios o espaço. É a hora das responsabilidades, a hora da conta e do castigo, a hora das apóstrofes, imprecações e anátemas, quando a voz do homem reboa como o canhão, a arena dos combates da eloqüência estremece como campo de batalha, e as siderações da verdade, que estala sobre as cabeças dos culpados, revolvem o chão, coberto de vítimas e destroços incruentos, com abalos de terremoto. Ei-la aí a cólera santa! Eis a ira divina!

Quem, senão ela, há de expulsar do templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco? Quem, senão ela, exterminar da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? Quem, senão ela, banir da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? Quem, senão ela, varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão público? Quem, senão ela, precipitar do governo o negocismo, a prostituição política ou a tirania? Quem, senão ela, arrancar a defesa da pátria à covardia, à inconfidência, ou à traição? Quem, senão ela, ela a cólera do celeste inimigo dos vendilhões e dos hipócritas? A cólera do justo, crucifixo entre ladrões? A cólera do Verbo da verdade, negado pelo poder da mentira? A cólera da santidade suprema, justiçada pela mais sacrílega das opressões?[4]  


A ira segundo o Evangelho

Jesus, “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), “foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro” (Is 53,7). Deixou-nos uma ordem severa de honrar o próximo: “todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão ‘Cretino’ estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar 'Louco’ terá de responder na geena de fogo” (Mt 5,22).

No entanto, várias vezes exprimiu sua santa ira, ao chamar os escribas e fariseus de “hipócritas”, “insensatos e cegos”, “sepulcros caiados” (Mt 23,13.17.27), ao chamar Herodes de uma “raposa” (Lc 13,32), ao dizer que para o que pratica escândalo “melhor será que se pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar” (Mt 18,6). Há ainda o impressionante episódio da expulsão dos vendilhões do Templo:

Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, com as ovelhas e com os bois; lançou ao chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas, e disse aos que vendiam pombas: “Tirai tudo isto daí; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”. Recordaram-se os discípulos do que está escrito: “O zelo por tua casa me devorará” (Jo 2,15-17).

Teria Jesus cometido algum crime contra a honra? Se estivesse no Brasil hoje, seria ele obrigado a indenizar os interlocutores por danos morais?  


Conclusão

Na maioria das vezes a ira é pecado. Há casos, porém, em que irar-se é, não apenas um direito, mas um dever. Quem permanecer impassível diante da profanação de um templo, do escândalo feito aos pequeninos, do aborto praticado e confessado publicamente, deve desconfiar de si mesmo. Essa ira, apesar de santa e necessária, não é aceita pelo mundo. De acordo com o juiz relator do acórdão, o segundo réu, enquanto padre, “embora devesse auxiliar na pacificação social, incitando as pessoas à tolerância e à paz, fomenta discórdia e intransigência à opinião alheia”.

Não há novidade nisso. Há dois milênios, logo após a expulsão dos vendedores do Templo, os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam como matariam Jesus (cf. Mc 11,18).

 Anápolis, 15 de maio de 2006.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis



[1] O inteiro teor do acórdão pode ser visto em http://tjdf19.tjdf.gov.br/cgi-bin/tjcgi1?NXTPGM=jrhtm03&;ORIGEM=INTER&PGATU=242231&l=&ID=3074860395&OPT=&DOCNUM=1

[2] Suma Teológica, IIª IIæ, questão 158, artigo 1, corpo: “Utrum irasci possit esse licitum”

[3] Idem. “Sed contra”.

[4] BARBOSA, Rui. Oração aos moços. São Paulo: Martin Claret, 2003. p. 34-35.

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