(o sonho de várias mulheres pró-vida)
A jovem deputada estadual Eduarda Campopiano (PL/SP), 23 anos, a mais bem votada[1] para a Assembleia Legislativa de São Paulo em 2026, disse que deseja que o aborto seja “impensável”[2]. O mesmo havia dito em 2021 a deputada federal Chris Tonietto (PL/SP): “Queremos que o aborto seja algo impensável”[3].
A primeira vez em que me deparei com essa frase foi no livro “Vítimas e vitoriosas: falando sobre suas gestações, abortos e filhos resultantes de violência sexual”[4]. A obra foi editada em 2000 por Julie Makimaa, uma estadunidense concebida em um estupro em 1964, criada em um lar adotivo, feliz por reencontrar sua mãe biológica em 1985. No posfácio do livro se lê: “Afinal, nossa meta não é simplesmente tornar o aborto ilegal. Nossa meta é torná-lo impensável”[5].
Sim, o aborto deveria ser para nós, brasileiros, algo como a antiga escravidão, abolida em 1888. Algo não apenas proibido, mas impensável. Para isso, porém, é preciso não fazer concessões ao aborto. A mais comum das concessões é a do aborto feito quando a gravidez resultou de um estupro. Assim ocorreu na Grã-Bretanha e nos EUA.
Uma vez admitida essa «exceção», deixou de haver fundamento racional para proibir o aborto em outros casos nos quais a gravidez pudesse impor dificuldades às mulheres.
Esse foi o proverbial «nariz do camelo dentro da tenda». Não demorou muito para que o restante do camelo viesse atrás. O que começou como aceitação social do aborto em alguns poucos casos raros levou necessariamente à aceitação social do aborto em praticamente quaisquer circunstâncias[6].
O nariz do camelo
Certa noite muito fria, um xeique estava deitado em sua tenda quando um camelo afastou as abas da entrada e ficou espiando lá dentro:
— Eu imploro, meu amo, disse o camelo, permita-me deixar meu nariz aqui dentro. Está frio demais lá fora.

— Pois muito bem, bocejou o xeique entediado depois de repousar nas almofadas o dia inteiro, — faça como quiser. O camelo enfiou o nariz dentro da tenda.
— Se eu pudesse aquecer o pescoço também, disse.
— Para mim, dá no mesmo, respondeu o xeique.
O animal avançou o pescoço e distraiu-se certo tempo olhando em torno. Depois de virar a cabeça para lá e para cá, acabou falando de novo:
— Só vai ocupar mais um pequenino espaçozinho se eu colocar minhas patas dianteiras dentro da tenda. Eu me sentiria muito, muito melhor!
O xeique apenas deu de ombros e rolou de lado, para dar mais espaço.
Mal o camelo plantara as patas dianteiras dentro da tenda, observou:
— Meu amo, do jeito que estou, as abas estão ficando abertas. Acho melhor entrar por inteiro.
— Como quiser, concordou o xeique, afastando-se mais para o animal poder entrar por inteiro.
O camelo entrou, entupindo a tenda. E logo começou a olhar feio para o xeique.
— Estou achando, disse, que não há lugar suficiente para nós dois aqui dentro. É melhor você ir lá para fora, já que é bem menor. Só assim vai haver lugar suficiente para mim.
Dito isto, empurrou o xeique, jogando-o no frio e na escuridão.
Sábia norma é resistir ao mal logo que surgir.
Afastando o nariz do camelo
O livro “Vítimas e vitoriosas” contém o resultado de uma pesquisa feita com 192 mulheres grávidas em razão de estupro ou incesto, e foi feita por Julie juntamente com o pesquisador David Reardon, especialista em síndrome pós-aborto e fundador do Instituto Elliott. Das 192 vítimas, 56 fizeram aborto, 133 deram à luz, e 3 sofreram aborto espontâneo.
Das 56 que fizeram aborto, seis delas não forneceram nenhuma informação sobre como se sentiam. Das 50 restantes, apenas uma vítima de estupro relatava não estar arrependida do aborto. Uma vítima de incesto afirmou que o aborto tinha sido a decisão correta no seu caso, mas não comentou sobre como o aborto a havia afetado. Quatro delas relataram vários arrependimentos em relação ao aborto, mas foram ambivalentes ao dizer se o aborto era ou não a melhor escolha. Quarenta e quatro (44) mulheres disseram explicitamente estar arrependidas de terem abortado e declararam que o aborto não tinha sido a melhor solução para suas gravidezes[7].
Das 133 que levaram a gravidez a termo, 80% falaram explicitamente da felicidade de terem escolhido dar à luz seus filhos. Nenhuma das mulheres declarou que não queria seu filho ou que desejaria ter optado por fazer um aborto[8].
Julie lamenta que haja uma simpatia do povo pelo aborto em tal hipótese:
Tudo isso é extremamente lamentável porque literalmente todas as evidências relativas a essa questão estão do nosso lado. É um fato pouco conhecido que a grande maioria das vítimas de violência sexual não quer abortar. Além disso, quando as vítimas de violência sexual fazem o aborto, os efeitos psicológicos a longo prazo, e mesmo a curto prazo, são devastadores. A maioria dessas mulheres descreve os efeitos negativos do aborto em suas vidas como ainda mais devastador que a violência sexual.
Violência sexual é na verdade uma contraindicação para o aborto. Um médico tratando de uma gestante vítima de violência sexual deveria desaconselhar o aborto precisamente por causa da natureza traumática da gravidez[9].
Portanto, é preciso abandonar a falácia:
Ainda que a gestante não quisesse ficar com a criança (o que não é nada habitual, pois o sofrimento faz crescer o amor da mãe pelo filho), em tal caso seria facílimo encaminhar o inocente recém-nascido para um dos inúmeros casais que estão na fila de adoção em nossos Juizados da Criança e da Juventude!
Anápolis, 6 de novembro de 2026.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Vice-presidente do Pró-Vida de Anápolis
[1] Eduarda Campopiano obteve 1.956.238 votos.
[2] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/a-guerra-ta-so-comecando-diz-deputada-mais-votada-de-sp.shtml
[3] https://www.camara.leg.br/noticias/815442-APOIADORES-DO-ESTATUTO-DO-NAS
[4] David REARDON; Julie MAKIMAA; Amy SOBIE. Victims and victors: speaking about their pregnancies, abortions and children resulting from sexual assault. Springfield, IL: Acorn Books, 2000. ISBN 0-9648957-1-4.
[5] David REARDON; Julie MAKIMAA; Amy SOBIE. Victims and victors… p. 182. O grifo é do original
[6] David REARDON; Julie MAKIMAA; Amy SOBIE. Victims and victors… p. 9.
[7] Cf. David REARDON; Julie MAKIMAA; Amy SOBIE. Victims and victors…p. 19-20.
[8] Cf. Ibidem…p. 22.
[9] Ibidem… p. 9-10. Os itálicos são do original.
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